Um diário de bordo

domingo, 10 de janeiro de 2016

O Nevoeiro

Ontem assisti um filme, O Nevoeiro, baseado em um livro de Stephen King, que, a princípio, me pareceu uma daquelas produções trash, tipo filme B.
Mas, à medida em que a trama se desenrolava, não pude deixar de fazer algumas analogias com a nossa sociedade em geral, e com a minha vida, em particular.
Depois de uma chuva torrencial e bem carregada de raios, uma cidadezinha ficou totalmente imersa em um denso nevoeiro. O personagem principal sai prometendo à mulher que já volta pra consertar os estragos da chuva, procura o vizinho porque a árvore deste cai em sua casa de barcos e vai à mercaria fazer algumas compras. Pelo que entendi é uma cidade onde pessoas ricas e bem sucedidas de Los Angeles passam feriados e f´érias. Poucos são os habitantes locais e estes são mão de obra, empregados.
De repente, alguém entra correndo na mercearia, ensaguentado, dizendo que há algo sinistro no nevoeiro. As pessoas, claro, ficam com medo. Ninguém se atreve a sair de onde está. Apenas uma mãe, que deixou os filhos sozinhos para fazer uma compra rápida se arrisca no nevoeiro.
Dentro do mercado se desenrola, então, uma disputa pelo controle daquele micro mundo. De um lado, a razão e análise dos fatos. De outro, uma religiosa, tida como fanática e instável, falando sobre o Apocalipse e como o homem desobedeceu as escrituras e merece o que está acontecendo.
A fanática acaba tomando o controle da situação, propondo o arrependimento e o  sacrifício às bestas daqueles que não acreditam.
Esse pequeno grupo resolve tomar coragem, pegar o carro de um deles e sair, rodando em busca de refúgio, até que a gasolina acabe. Assim, sem mantimentos, planos, nada. Alguns, claro morrem, não sem antes descobrir que tudo isso é fruto de uma experiência do exército com portais interdimensionais.
Quando a gasolina acabam, eles escolhem não tentar, não planejar, não correr mais riscos e se decidem pelo suicídio. Quatro balas, 5 pessoas.
E nosso protagonista, que sobra, agoniza ao perceber a névoa se dissipando e o socorro chegando, apenas minutos depois de ter tirado a vida do próprio filho.
Ahhhhhh, sabe a mãe que enfrenta a névoa por amor aos seus filhos, passa, com eles, sã e salva em um caminhão do exército.
E onde entramos nessa?????
Acredito que, hoje, no modelo atual de economia e sociedade, vivamos dentro da mercearia. Com medo, encolhidos, acuados demais pra nos aventurar e conhecer o diferente. Pré julgando, exterminando. E escondemos nossos receios e limitações atrás de uma racionalidade excessiva e fria, ou em um fanatismo religioso preconceituoso e raivoso quanto as diferenças. Sem meio termo, sem empatia. Os dois lados escolhendo quem vive e quem morre segundo seus próprios paradigmas. Escolhendo morrer e matar ao invés de se aventurar, a derrubar o véu. Esperando a salvação, do alto, ou da ciência, inertes.
E eu?
Vivo no mercado também. Não se vê um palmo fora dos limites, os conflitos de dentro são tão grandes quanto os perigos de fora. A ansiedade é tão predadora quanto os animais ocultos na névoa lá fora e os conflitos de dentro. Ansiedade de não fazer. De não ter coragem. De ter medo do desconhecido. De não querer ceder ao lado frio e científico, nem de ser dominada pelo fanatismo religioso. Mas a vontade de poder escolher o caminho do meio. De sair do mercado. Mas com um plano melhor do que só ir fazendo e ver no que vai dar.De poder ter suprimentos que resguardem a estadia na escuridão. De poder ter recursos pra defender a mim e aos meus lá fora. De simplesmente tomar uma decisão.
E, principalmente, não desistir e agir sem um propósito, acabando por matar as chances de uma vida melhor com os próprios recursos, a minutos da ajuda chegar.
Acredito que a vida e os conflitos dentro do mercado sejam a minha cabeça, em guerra consigo mesma, sem chegar a um acordo de quem manda. Sem querer somar esforços e poder ser um equilíbrio de todas essas forças. E a névoa e seus animais, o modo como a ansiedade, a socialização que recebi e minhas memórias profundas pintem o outro e o dia-a-dia.
O fato é: eu não vou desistir antes da névoa dissipar. Se o combustível acabar vou a pé. Minha ansiedade não vai atirar na minha boca antes da hora. Se for pra morrer, prefiro tombar...








P.S.:Achei o papel feminino no filme muito paradoxal. É a mãe corajosa que vence no final. É a beata fanática que oferece sacrifício humano. É a coajduvante faz tudo do protagonista, que está ali pra tomar conta do filho dele.

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Tô construindo a vida que eu sempre quis! e você?????????